Enquanto realiza diversas investidas contra a comunidade internacional, como a captura de Nicolás Maduro e ameaças contra aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Donald Trump enfrenta uma crise interna que pressiona o governo.
O que está acontecendo?
- Donald Trump iniciou 2026 com uma série de ameaças militares contra o mundo, não só contra países não-alinhados com os EUA, mas também contra aliados.
- Em janeiro, o presidente norte-americano anunciou a captura de Nicolás Maduro, após uma mega-operação dos EUA na Venezuela.
- Semanas depois, Trump voltou a falar sobre as intenções de tomar controle da Groenlândia, ilha autônoma que faz parte da Dinamarca.
- Alegando questões de segurança nacional, o presidente norte-americano estremeceu a relação dos EUA com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao iniciar a ofensiva contra a Groenlândia.
- Logo após as declarações de Trump, países europeus se mostraram prontos para defender a ilha, conforme prevê o artigo 5º da Otan, sobre defesa coletiva de aliados.
- Ao mesmo tempo em que faz ameaças militares contra o mundo, o presidente dos EUA enfrenta problemas internos. Um dos exemplos são as manifestações que tomaram conta do país, contra a repressão a imigrantes no país.
No mesmo dia em que concluiu o primeiro ano do segundo mandato, Trump viu as ruas dos Estados Unidos serem tomadas por protestos. Os atos foram motivados pelas políticas migratórias do governo norte-americano.
Classificada como Free America Walkout (Paralisação pela Liberdade da América, em tradução livre), a mobilização resultou em 450 protestos em todos os 50 estados do país. Segundo organizadores das manifestações, que incluíram setores sociais, ativistas e sindicais, as manifestações visam frear o que classificam como a “crescente ameaça fascista”.
Os protestos tiveram início após a morte de Renee Nicole Good, em Minnesota, no início do mês. A cidadã norte-americana, de 37 anos, foi morta por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) durante uma operação contra imigrantes no estado.
Veja o momento:
O caso inflamou ainda a parcela de cidadãos norte-americanos contrários as duras políticas de Trump contra imigrantes ilegais — que incluíram até mesmo o envio de estrangeiros para uma prisão de segurança máxima em El Salvador.
De acordo com analistas ouvidos pelo Metrópoles, os atos nas ruas refletem não só uma insatisfação de opositores de Trump, como também uma preocupação maior para o Partido Republicano.
Em novembro deste ano, está prevista a realização das middle elections nos EUA. Conhecidas como eleições de meio de mandato, o pleito legislativo elegerá todos os 453 deputados da Câmara dos Representantes, além de 33 ou 34 dos 100 assentos no Senado.
A eleição, na prática, pode colocar um fim ao comando republicano no Congresso Nacional, dificultando, assim, o andamento da administração Trump.
“Se somarmos esses protestos populares ao fato de estarmos em vias de eleições de meio de mandato, as middle elections, classes parlamentares estão muitíssimo preocupadas com a posição do eleitorado mediano”, afirma Rodrigo Medina, chefe do departamento de Relações Internacionais e professor de História das Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
“Precisamos considerar, por exemplo, que Trump não é unanimidade entre republicanos. Isso ficou bastante expresso quando o próprio Senado figurou como autor de um projeto de lei que impede o governo Trump de intervir na Venezuela. Esse texto contou com a assinatura de cinco parlamentares republicanos que votaram junto com democratas”, completa o especialista.
Somado aos protestos, o caso Jeffrey Epstien também tem pressionado o presidente dos EUA, devido a ligação do republicano como ex-financista condenado por abuso sexual de menores. Nos últimos documentos sobre o caso liberados por autoridades norte-americanas, o pedófilo chegou a afirmar que o atual líder norte-americano, com quem manteve relação próxima na década de 1990 e início dos anos 2000, “sabia das meninas”.
Segundo Rodrigo Medica, as recentes ameaças de Trump contra o mundo podem ser “uma cortina de fumaça para a situação interna dos Estados Unidos”. “E existem precedentes para isso. Se nós recordamos a crise instaurada durante a gestão Bill Clinton, por conta de um escândalo sexual, tendo sido respondido no plano da política externa com o envolvimento militar dos Estados Unidos nos Balcãs [guerras na Bósnia e Kosovo]”, conta o especialista.
O professor da Unifesp aponta que os atos de Trump podem ser interpretados como uma tentativa de ocultar “contradições internas”.
“Diante de todo o atual cenário do país, com protestos, recrudescimento da perseguição policial, o dissenso do Executivo, com governadores, trata-se, nesse caso, da tentativa de, por meio da incitação a guerra, sobretudo no plano discursivo, ocultar contradições internas”, diz.




