Kerche explica que o tribunal, que teve as atribuições ampliadas na Constituição de 1988, ganhou protagonismo nos últimos anos no combate aos escândalos de corrupção, como o Mensalão e a Lava Jato, durante a pandemia, quando funcionou como “espécie de freio aos arroubos autoritários do bolsonarismo”, além de ter sido fundamental para sustentar a democracia na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Porém, ele aponta que “o protagonismo tem o seu preço”.
“Como está muito em evidência, quando vem qualquer tipo de denúncia ou questionamento em relação ao STF, isso ganha uma importância muito grande, talvez maior do que seria no passado. O STF era, vamos dizer assim, mais discreto. Então tem um impacto político”, afirma.
“A crítica deve ser feita. Ninguém está acima da crítica. Todo mundo deve prestar contas, mas eu me preocupo um pouco, às vezes, vamos dizer assim, com a falta de calibragem dessa crítica, porque ela pode se exceder e ser mais do que uma crítica a um ministro, ao comportamento de alguns ministros, e acabar atingindo a instituição como um todo, instituição essa que é fundamental para a democracia brasileira.”
“O grupo do Vorcaro financiou de maneira expressiva, por exemplo, a campanha do [Jair] Bolsonaro e do Tarcísio de Freitas. E não se tem notícia, pelo menos até agora, de um financiamento de campanha para a esquerda. Isso revela alguma coisa. A gente tem que colocar em nuances”, afirma.
Essa cobertura seletiva e sem nuances ocorre porque “a imprensa não é neutra” e possui uma visão mais alinhada à direita liberal, o que Kerche aponta não ser um problema, pois ocorre em veículos de todo o mundo. A questão, segundo ele, é que, no Brasil, a mídia se “vende como plural”, o que não corresponde à realidade.
“E não é. Ela tem uma leitura, tem visões, tem um parti pris, tem concepções de mundo que, vamos dizer assim, contaminam a cobertura. E esse é mais um caso, um exemplo. Na Lava Jato a gente assistiu isso, mas agora parte da imprensa repete uma cobertura muito semelhante, uma estratégia de cobertura muito semelhante do que se fez com a Lava Jato”, observa.
“Nem todo escândalo de corrupção atinge a opinião pública da mesma forma. Então, o caso Master, pelo menos o que as pesquisas estão indicando até agora, ainda está [sendo] um caso muito mais restrito aos atores políticos e à chamada grande imprensa do que propriamente um assunto que está na boca do povo.”
Na avaliação de Kerche, a democracia no Brasil não está tão consolidada quanto se imaginava, como ficou exposto na tentativa de golpe em 2022, orquestrada nos mesmos moldes do que se fazia na América Latina nos anos 1960 e 1970. Por isso, segundo ele, é preciso se manter atento a crises envolvendo corrupções, como a do Master.
“Isso deveria ser celebrado. É sinal de que as nossas instituições, a nossa democracia está funcionando. Mas o que transforma? É um paradoxo. Quanto mais você combate a corrupção, mais parece que a corrupção é um grave problema e mais recai sobre o governo. Esse governo deveria ser aplaudido, não criticado, ele combateu a corrupção. Então, nesse ponto, essa estratégia de criminalizar a política como um todo é muito ruim.”
Fonte: HOJE BAHIA
