O novo modelo de negociações para pôr fim à guerra entre Rússia e Ucrânia começa a ganhar forma, ainda que avance em ritmo cauteloso. Após a primeira reunião trilateral envolvendo delegações de Moscou, Kiev e Washington, um gesto articulado pelos Estados Unidos abriu espaço para uma redução temporária da escalada militar.
Donald Trump foi o responsável por articular uma trégua parcial. A Rússia concordou em suspender temporariamente os ataques aéreos contra Kiev até este domingo (1º/2), após um pedido direto do republicano ao presidente Vladimir Putin.
“O presidente Trump fez um pedido pessoal para que Moscou se abstivesse de atacar Kiev por uma semana, a fim de criar condições favoráveis para as negociações”, confirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.
A medida ocorre em meio a uma onda de frio extremo na Ucrânia. Meteorologistas alertam para temperaturas que podem chegar a -26°C na capital, agravando a crise humanitária causada pelos ataques à infraestrutura energética.
Zelensky, no entanto, fez questão de esclarecer que não há um cessar-fogo formal em vigor. “Isso é uma oportunidade, não um acordo”.
Nova rodada de conversas trilaterais
O Kremlin anunciou na última quarta-feira (29/1) que uma nova rodada de negociações de paz entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos está prevista para este domingo (1º/2), em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.
Coincidentemente, o último dia da trégua temporária.
Segundo Peskov, a data ainda é provisória, mas serve como referência para a continuidade das tratativas.
Ele reforçou que não há, atualmente, discussão pública sobre documentos ou listas de compromissos, destacando o caráter sensível do processo.
Do lado ucraniano, o presidente Volodymyr Zelensky confirmou que discussões preliminares indicam a continuidade do diálogo na mesma data. As conversas anteriores, foram descritas por Kiev e Washington como “construtivas”.
O Kremlin reconheceu o tom inicial positivo, mas ressaltou que “ainda há muito trabalho pela frente”.
Impasses centrais seguem intactos
- Apesar do novo fôlego diplomático, os principais entraves permanecem.
- O chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, afirmou que Zelensky está disposto a se reunir pessoalmente com Putin para discutir os pontos mais sensíveis do plano de paz de 20 pontos.
- Especialmente a questão territorial e o futuro da usina nuclear de Zaporizhzhia, ocupada pela Rússia.
- Atualmente, Moscou controla cerca de 20% do território ucraniano reconhecido internacionalmente, incluindo áreas de Luhansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia.
- A exigência russa de que Kiev abandone formalmente qualquer reivindicação sobre essas regiões é considerada inaceitável pelo governo ucraniano.
- Zelensky rejeitou a proposta do Kremlin para realizar conversações em Moscou, mas sinalizou abertura para um encontro em formato “apropriado”.
Cooperação humanitária em meio à guerra
Mesmo com os impasses, gestos pontuais de cooperação seguem ocorrendo.
Rússia e Ucrânia realizaram a primeira troca de corpos de soldados mortos em combate em 2026. Moscou devolveu os restos mortais de 1.000 militares ucranianos, enquanto recebeu 38 corpos de soldados russos, em operação com apoio da Cruz Vermelha Internacional.
A troca humanitária, uma das poucas áreas de consenso entre os dois países desde 2022.
Diplomacia sob cálculo estratégico
As negociações em Abu Dhabi revelam um novo desenho do processo diplomático, mais técnico e menos ideológico, segundo autoridades ucranianas.
Há discussões paralelas envolvendo representantes militares e de inteligência, focadas em mecanismos de verificação, parâmetros para cessar-fogo e garantias de segurança.
Washington busca reduzir tensões globais, reorganizar prioridades estratégicas e reabrir canais de diálogo com Moscou, ampliando a pressão sobre Kiev — considerada o elo mais vulnerável da negociação.
Para analistas ouvidos pelo Metrópoles, o formato trilateral evidencia um desequilíbrio de forças. Rússia e Estados Unidos aparecem como atores capazes de impor termos, enquanto a Ucrânia tenta evitar que um eventual acordo congele o conflito em condições desfavoráveis, legitimando perdas territoriais obtidas pela força.




