A vida de Bashar al-Assad virou de ponta-cabeça em menos de um ano. De presidente da Síria há mais de duas décadas, o oftalmologista de 60 anos passou a ser procurado pela Justiça do país que comandou com pulso de ferro ao dar continuidade ao legado da família.
Quem é Bashar al-Assad?
- Formado em oftalmologia, Bashar al-Assad assumiu a presidência da Síria em 2000, após a morte do pai, Hafez al-Assad, que comandava o país desde 1971.
- Originalmente, Assad era o segundo no trono de sucessão, e carregava poucas aspirações políticas. Ele, porém, foi alçado ao posto após a morte do irmão mais velho, Bassel al-Assad, em um acidente de carro.
- Assim como o pai, Assad governou a Síria com mãos de ferro, e viu o país mergulhar em uma guerra civil em 2011.
- O estopim para os conflitos foram protestos da Primavera Árabe, que pediam reformas políticas e maior liberdade e democracia na Síria. Além disso, manifestantes cobravam a libertações de estudantes presos por picharem slogans revolucionários pela queda do regime.
Desde setembro de 2025, Assad é alvo de mandado de prisão emitido por um tribunal da capital síria, Damasco. As acusações contra o ex-presidente giram em torno de eventos que ocorreram na província de Daraa, em 2011. A região ficou conhecida como o berço dos protestos no país, que desencadearam a guerra civil síria após forte repressão governamental das manifestações.
Homicídio premeditado, incitação e tentativa de homicídio, tortura. Estes são alguns crimes que o ex-líder sírio teria cometido durante os mais de 13 anos de guerra civil na Síria, envolvendo forças governamentais, forças de oposição, atores internacionais e grupos terroristas.
O mandado de prisão, contudo, ainda não foi cumprido. Isso porque Assad, junto da família, fugiu para a Rússia antes que grupos rebeldes liderados pelo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) chegassem até a capital do país, Damasco, em 8 de dezembro de 2024.
A exata localização do ex-presidente da Síria é incerta. Relatos apontam que Assad vive sob forte vigilância de forças russas na capital do país, Moscou.
Fuga
Os detalhes sobre a saída de Assad da Síria ainda são obscuros. As primeiras informações sobre a fuga foram divulgadas pelo governo da Rússia, que até aquele momento se posicionava como um dos principais parceiros internacionais do presidente sírio.
Horas após a chegada dos jihadistas ligados ao HTS em Damasco, a chancelaria russa revelou que Assad decidiu renunciar ao cargo de presidente, e instruiu uma transferência de poder “de forma pacífica”.
Mais de uma semana de silêncio absoluto se seguiu, até a publicação de uma carta nas redes sociais da antiga Presidência da Síria.
Segundo o documento, assinado por Assad, ele e a família foram transferidos para a base aérea russa de Hmeimin, na província de Latakia, enquanto rebeldes se aproximavam da capital Damasco.
Ainda assim, Assad se negou a classificar o movimento como uma fuga, e afirmou que buscou exercer o papel de “guardião de um projeto nacional” até o fim.
“Ao chegarmos à base aérea de Hmeimim naquela manhã, ficou claro que nossas forças haviam se retirado completamente de todas as linhas de batalha e que as últimas posições do exército haviam caído”, disse um trecho do comunicado. “Em nenhum momento durante esses eventos considerei renunciar ou pedir asilo, nem tal proposta foi feita por ninguém ou por qualquer grupo”.
Nas palavras do ex-líder sírio, a saída dele do país ocorreu após pedidos vindos de Moscou, por conta dos ataques de rebeldes contra bases militares da Rússia na Síria.
“Como não havia como sair da base, Moscou solicitou que o comandante da base providenciasse uma evacuação de emergência para a Rússia na noite de domingo, 8 de dezembro. Isso ocorreu um dia após a queda de Damasco e na sequência do colapso final das posições militares e da paralisia de todas as instituições governamentais restantes”, disse Assad na publicação.
Na época, a Rússia negou ter participado de qualquer negociação envolvendo a saída do ex-presidente do país, onde são mantidas bases militares ligadas ao Kremlin desde os primeiros anos da guerra civil síria.
Essa versão dos fatos é confrontada pelo novo líder da Síria, Ahmed al-Sharaa. Em entrevista divulgada em setembro deste ano, o ex-jihadista que liderou a ofensiva afirmou que a Rússia fez um acordo para abandonar Assad antes da queda de Damasco.
O acordo teria sido firmado durante o avanço dos rebeldes na cidade de Hamas, onde forças russas atuavam. Em meio à iminência da queda do então presidente, tropas do país liderado por Vladimir Putin teriam concordado em se retirar da cena militar do país. Moscou nunca se pronunciou sobre a alegação.
Envenenamento
Após meses de silêncio vivendo no exílio em Moscou, o nome de Assad voltou a ganhar destaque em outubro deste ano. Segundo relatório do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR), o ex-líder sírio teria sido internado em estado crítico em 20 de setembro, após ser vítima de um envenenamento dentro da casa em que vive.
Por conta da gravidade do caso, o ex-presidente da Síria teria sido internado em uma unidade de terapia intensiva (UTI) em um hospital nas redondezas de Moscou. Nove dias depois, após o quadro clínico se estabilizar, Assad recebeu alta.
O governo da Rússia manteve silêncio sobre o assunto por quase três semanas. Após a suposta alta do ex-líder sírio, porém, o chanceler do país, Sergey Lavrov negou o caso.
“Concedemos asilo humanitário a Bashar al-Assad e sua família por razões puramente humanitárias. Ele não tem problemas em viver em nossa capital. Não houve nenhuma tentativa de envenená-lo. Se existem tais rumores, deixo-os à responsabilidade da consciência daqueles que os espalham”, afirmou Lavrov.
Para o ministro das Relações Exteriores da Rússia, a estadia de Assad na Rússia visa impedir retaliações, como a que ocorreu com Muammar Gaddafi, ex-presidente da Líbia morto em 2011, “que encantou a então secretário de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que assistiu à sua execução ao vivo pela televisão e a aplaudiu”, acrescentou Lavrov.