No mesmo dia que assumiu o mandato como 47º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump assinou, em 20 de janeiro de 2025, a ordem executiva 14168 que afirma ter como objetivo “defender as mulheres do extremismo da ideologia de gênero e restaurar a verdade biológica ao governo federal”. Na prática, o texto passou a reconhecer oficialmente apenas dois sexos – masculino e feminino – definidos como categorias biológicas imutáveis com base no sexo atribuído no nascimento.
Acompanhada da medida, a agenda política dos dias seguintes foi marcada por bloqueios de verbas e revogações de políticas públicas voltadas à saúde de pessoas trans e à educação inclusiva. Ainda em janeiro, Trump assinou mais uma ordem, dessa vez pela exclusão de pessoas trans do serviço militar.
Os impactos foram imediatos. Na educação, escolas em estados conservadores passaram a restringir o uso de pronomes e a limitar o acesso de estudantes trans a espaços compatíveis com sua identidade. Na saúde, há relatos de interrupções abruptas de tratamentos hormonais e aumento da insegurança jurídica para médicos.
Ao todo, 27 dos 50 estados norte-americanos já haviam implementado leis que limitam cuidados médicos de afirmação de gênero, participação em esportes ou acesso a banheiros entre 2018 e 2024. Apesar disso, foi apenas com o retorno de Donald Trump à presidência que o governo federal parou de combater essas restrições e passou a coordená-las.
A análise de dados consolidados de 2018 a 2025 de relatórios anuais da Human Rights Campaign (HRC) e da American Civil Liberties Union (ACLU), assim como estudos do The Trevor Project e da Williams Institute UCLA School of Law, indica que o primeiro ano de Trump 2.0 consolidou um movimento de retração de direitos civis e marcou o maior retrocesso sofrido pela população trans e LGBT+ nos EUA em mais de meio século.
Os números mostram que o fenômeno não se resume apenas à revogação de direitos, mas à sua institucionalização simultânea em nível federal e estadual.
Alvo anti-trans e judicialização
Para Fernando Hessel, observador-chefe da Casa Branca e do Pentágono, a tendência para 2026 é de continuidade da política anti-trans do governo Trump, mesmo diante de tentativas de contenção por parte do Judiciário estadunidense.
Até junho de 2025, a organização norte-americana de direitos civis Lambda Legal, que presta aconselhamento jurídico à pessoas da comunidade LGBT+, registrou mais de 4,3 mil pedidos de assistência. Segundo a ONG, os dois primeiros meses de Trump 2.0 concentram quase metade dessas solicitações e registraram uma média quatro vezes maior que no mesmo período de 2024.
Somente os casos relacionados à identidade de gênero representavam 79% dessas solicitações. Entre as principais questões levantadas pela comunidade estavam:
- Acesso a certidões de nascimento, carteiras de identidade e passaportes atualizados com o gênero correto;
- Discriminação em escolas, locais de trabalho e hospitais;
- Restrições ao atendimento médico especializado, principalmente para jovens trans;
- Exclusão de pessoas trans das Forças Armadas;
- Perseguições motivadas por identidade de gênero, incluindo violência física e ameaças;
- Problemas de imigração envolvendo pessoas LGBTQ+, em especial as trans.
Além da atuação civil, a Lambda Legal conduz ao menos seis ações judiciais contra políticas da atual gestão federal, incluindo decretos que banem pessoas trans do serviço militar e bloqueiam o acesso a tratamentos de afirmação de gênero, inclusive para menores de idade.
A análise dos relatórios da ACLU e HRC, que produzem rastreamentos legislativos anuais, mostra que o número de projeto de leis que limitam a garantia de direitos civis do grupo já havia apresentado um aumento de 9150% entre 2018 e 2023, quando passou de duas leis restritivas para 185.
Historicamente, o governo federal atuou como um freio às iniciativas estaduais discriminatórias. Entre 2009 e 2024, o Departamento de Justiça interveio nos principais casos para barrar violações de direitos, como ocorreu na Carolina do Norte.
Em 2025, porém, esse papel foi invertido: pela primeira vez em cinco décadas, a Casa Branca passou a liderar o processo de retração, validando e ampliando restrições que antes buscavam conter judicialmente.
Em mensagem de fim de ano à comunidade LGBT+, a Lambda Legal classificou 2025 como um período de “ataque implacável” à existência da população trans. Ainda assim, a organização aponta razões concretas para manter a mobilização em 2026, citando resultados eleitorais recentes e decisões judiciais que barraram ordens executivas, incluindo liminares que impediram o corte de verbas para serviços de saúde de afirmação de gênero destinados a jovens.
Apesar disso, segundo Hessel, mesmo com derrotas judiciais pontuais, o governo deve insistir na pauta anti-trans por ela ser central à identidade política do presidente. “Isso consome tempo e energia, já que os estados judicializam e juízes federais têm barrado várias ações. Com isso, o governo desvia atenção de temas urgentes como moradia, saúde, segurança alimentar e a crise social. O país perde tempo com uma pauta que já estava resolvida”, afirma.
Migração forçada
Distribuídas por todos os estados e faixas etárias, mais de 2,8 milhões de pessoas se identificam como transgênero nos EUA, sendo cerca de 724 mil jovens de 13 a 17 anos e mais de 2,1 milhões de adultos, aponta um levantamento da Williams Institute, da UCLA School of Law de 2024.
A fragmentação legislativa criou, na prática, um país com regras distintas conforme o território. Em estados conservadores, pessoas trans enfrentam barreiras adicionais para estudar, trabalhar e acessar serviços públicos; em estados progressistas, governos locais tentam blindar políticas de exclusão e garantir atendimento.
A Williams Institute afirma que as determinações do governo Trump desencadearam uma crise de deslocamento interno, onde a busca por segurança e saúde se tornou um motivo para a migração forçada de cidadãos.
Entre adultos trans entrevistados, 48% afirmaram já ter se mudado ou considerar a mudança para estados mais acolhedores após as medidas do governo federal. Entre jovens de 13 a 17 anos em estados restritivos, 18% relataram ter deixado seu estado para acessar cuidados médicos.
Saúde mental em deterioração
Estudos recentes baseados em dados do The Trevor Project indicam uma relação direta entre a aprovação de leis anti-transgênero e o agravamento da saúde mental de jovens trans e não-binários nos Estados Unidos.
A pesquisa estabelece um nível elevado de evidência científica ao indicar relação causal — e não apenas correlação — entre a legislação restritiva e o aumento do risco de tentativas de suicídio.
Entre jovens trans e não-binários menores de 18 anos que vivem em estados onde leis anti-trans foram aprovadas, as tentativas de suicídio chegaram a registrar um aumento de 72% no ano seguinte à entrada em vigor dessas normas, na comparação com os anos anteriores à adoção.
O impacto também se estende a uma faixa etária mais ampla: entre jovens de 13 a 24 anos, o aumento variou de 38% a 44% nos mesmos estados.
Pesquisadores destacam que o reconhecimento legal e social da identidade de gênero funciona como fator de proteção comprovado. Dados do The Trevor Project mostram que o uso consistente de nomes e pronomes corretos reduz em até 40% o risco de tentativas de suicídio. Esse mecanismo, porém, vem sendo enfraquecido por leis estaduais e medidas federais adotadas em 2025.
Esse mecanismo de proteção, no entanto, vem sendo enfraquecido por leis estaduais que restringem essas práticas e por medidas federais adotadas em 2025.
“O governo não responde [sobre os impactos na saúde mental de pessoas trans]. Silencia. E isso fica ainda mais evidente quando a argumentação vem da comunidade médica. A pauta é ideológica e o governo evita se confrontar com evidências técnicas sobre saúde mental e segurança desses jovens”, analisa o observador da Casa Branca, Fernando Hessel.
Caos administrativo
Apesar do caráter ideológico das ordens executivas, Fernando Hessel ressalta que os impactos vão muito além do campo simbólico. Segundo ele, as medidas atingem diretamente a engrenagem administrativa do Estado ao interferir em bases de dados que sustentam políticas públicas e a elaboração do orçamento federal.
“Isso afeta pesquisas, programas e dados federais que servem de base para orçamentos inteiros. Impacta projeções de saúde, programas sociais, análises econômicas e até cálculos eleitorais. Quando o governo altera essas categorias, muda a base estatística usada para planejar o país”, afirma Hessel.
Segundo ele, ao tentar revisar informações já consolidadas, o Executivo criou para si um problema administrativo de grandes proporções. “Reclassificar esses bancos gera inconsistências operacionais. O governo teria de criar novos formulários, novos sistemas, e isso inevitavelmente provoca erros, atrasos e falhas na prestação de serviços”, conclui.


