As ofensivas norte-americanas na América Latina ganharam novo fôlego sob o segundo mandato de Donald Trump, mas seguem ancoradas em uma lógica histórica: a manutenção da hegemonia dos Estados Unidos sobre sua zona de influência.
Embora Trump adote métodos mais explícitos de pressão, a lógica subjacente não é nova. Desde a Doutrina Monroe e o Corolário Roosevelt, a política dos EUA na região busca resguardar interesses estratégicos, conter a atuação de outras potências e calibrar o nível de autonomia dos países da região.
No início de dezembro, Trump elevou o tom ao afirmar que nações envolvidas na produção ou venda de drogas para o mercado norte-americano poderão ser alvo de ataques militares. A declaração escalou as ameaças do republicano sob o argumento de combater o “narcoterrorismo”. “Qualquer um que fabrique isso [drogas] e venda para o nosso país está sujeito a ataques. Não apenas a Venezuela”, disse.
A ameaça foi cumprida em 3 de janeiro de 2025, quando os EUA bombardearam a Venezuela e capturaram o presidente do país, Nicolás Maduro, junto da esposa, Cilia Flores. Os dois foram indiciados por uma Corte localizada em Nova York, onde devem ser julgados por crimes relacionados ao tráfico internacional de drogas — acusações que ainda não possuem provas concretas.
Corolário Roosevelt e Doutrina Monroe
- O Corolário Roosevelt, formulado em 1904 como extensão da Doutrina Monroe, transformou a política hemisférica dos Estados Unidos ao legitimar intervenções diretas na América Latina.
- Se a Doutrina Monroe, de 1823, buscava barrar a presença europeia no continente, o corolário deslocou o eixo para a ação norte-americana.
- Washington passou a se apresentar como “polícia internacional”, autorizando-se a intervir militarmente para garantir estabilidade.
Escalada militar no Caribe
A retórica de confronto acompanha um aumento expressivo da presença militar norte-americana. A missão no Caribe — conduzida sob a justificativa de reprimir cartéis — conta com cerca de 15 mil militares, além de aeronaves de combate e navios de guerra, incluindo o porta-aviões USS Gerald Ford, o maior do mundo.
Desde setembro, as Forças Armadas dos EUA destruíram mais de 24 embarcações classificadas como ligadas ao tráfico. O número de mortos durante os bombardeios já ultrapassou a casa dos 100. Provas sobre a ligação entre os barcos e o tráfico internacional, contudo, ainda não foram divulgadas.
As ações ocorreram paralelamente ao esforço político da Casa Branca para enquadrar o governo de Nicolás Maduro como patrocinador de narcoterrorismo, por supostamente abrigar o cartel de Los Soles, agora designado como organização terrorista internacional.
O republicano afirmou que a Operação Lança do Sul poderia avançar para ataques terrestres. “É muito mais fácil, e nós conhecemos os trajetos que eles percorrem. Sabemos onde eles moram”, disse.
Trump já havia declarado unilateralmente que o espaço aéreo venezuelano deveria ser considerado “fechado”, e também ordenou um bloqueio marítimo contra o país. Desde então, três navios petroleiros, que transportavam petróleo da Venezuela, foram apreendidos por forças norte-americanas na região.
Pressão sobre vizinhos e conflito com Petro
- A ofensiva norte-americana também mira a Colômbia. Na última semana, Trump acusou Gustavo Petro de “liderar o tráfico de drogas” e suspendeu subsídios a Bogotá.
- Em seguida, o secretário de Guerra, Pete Hegseth, anunciou o ataque a uma embarcação colombiana supostamente ligada ao ELN.
- À época, Petro chegou a afirmar que Trump estaria “planejando um golpe de Estado” contra seu governo.
- A reativação da retórica militar do governo Trump deve ser entendida em perspectiva histórica: a administração recuperou a lógica da “Guerra contra as Drogas” como instrumento de legitimação para novas formas de intervenção e pressão na América Latina.
- A narrativa reforçada pela Casa Branca atribui aos países latino-americanos a responsabilidade pelo avanço da drogadição nos Estados Unidos, criando um argumento moral para sustentar medidas mais duras na região.
Impactos sobre o Brasil
O governo Lula atua com cautela para não abrir novas frentes de atrito com Washington. A leitura é que Brasília tenta evitar novas retaliações econômicas adicionais, ao mesmo tempo, em que monitora o aumento da pressão militar dos EUA sobre a Venezuela.
“Embora Lula tenha denunciado a ameaça do uso da força na região, ele evita assumir uma posição mais contundente na defesa da soberania venezuelana”, avalia Matheus Marreiro, internacionalista e doutorando em estudos estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). “O temor é que qualquer escalada nesse debate resulte em novas taxações que atinjam setores estratégicos da economia brasileira.”
Doutrina Monroe, mas na versão Trump
Movimentos recentes reforçam a leitura de que o republicano busca reabilitar uma versão atualizada da Doutrina Monroe. Documento divulgado pela Casa Branca afirma que os EUA devem impedir que “competidores extrarregionais” controlem ativos estratégicos no hemisfério ocidental.
O historiador Victor Missiato, do Mackenzie Tamboré, afirma que o discurso antidrogas mascara um objetivo maior: recompor o domínio estratégico dos EUA.
“O governo Trump mira restaurar o controle sobre a região, em um mundo dividido por zonas de influência — Rússia na Ucrânia, China em Taiwan, e os EUA buscando salvaguardar sua vizinhança, onde Pequim vinha ganhando espaço. A operação militar na Venezuela e o apoio seletivo à Argentina fazem parte desse redesenho.”
Missiato destaca que esse movimento ocorre simultaneamente a tensões globais em outros tabuleiros, tornando a América Latina um espaço de compensação geopolítica para Washington.
Crimes de guerra e tabuleiro em constante movimento
A ofensiva militar ganhou contornos ainda mais graves após revelação de que o Pentágono teria ordenado um segundo ataque contra uma embarcação já destruída, visando matar sobreviventes.
A legislação internacional proíbe ataques a náufragos, e a denúncia motivou investigação no Congresso. Parlamentares democratas classificaram as imagens como “uma das coisas mais preocupantes” já vistas, enquanto republicanos próximos a Trump defenderam que o ataque foi “legal e necessário”.
“No atual governo de Trump, o principal objetivo estratégico das políticas norte-americanas não difere dos governos anteriores: manter a hegemonia estadunidense globalmente, ou seja, preservar-se como o Estado mais poderoso em todos os aspectos”, ressalta Missiato.




