Neste domingo (30/11), os eleitores hondurenhos vão às urnas para escolher os representantes nas eleições presidenciais, legislativas e municipais. Mais de seis milhões de habitantes deste pequeno país da América Central, devastado pelo narcotráfico e pela corrupção, devem escolher, entre outros cargos, um novo presidente, 128 deputados e cerca de 300 prefeitos.
A esquerda hondurenha, que chegou ao poder pela primeira vez há quatro anos com Xiomara Castro, busca conquistar um segundo mandato apresentando Rixi Moncada como candidata do partido Liberdade e Refundação (Libre). Contra ela se erguem os dois grandes partidos conservadores, que vêm se alternando na presidência quase sem interrupção há mais de um século: o Partido Liberal (PL) e o Partido Nacional (PN), representados respectivamente pelos candidatos Salvador Nasralla e Nasry Asfura. As últimas pesquisas colocam os três concorrentes em empate técnico.
“Narco-Estado”
As eleições acontecem em um contexto tenso. Desde 2022, Honduras vive sob estado de emergência permanente, instaurado para tentar conter a expansão das gangues e do tráfico de drogas. No entanto, em muitas regiões, a autoridade das “maras” (gangues) ainda é mais forte que a do Estado. O governo de Xiomara Castro, que chegou ao poder prometendo virar a página do “narco-Estado” corroído pela corrupção, viu seu discurso abalado em 2023 após a divulgação de um vídeo envolvendo Carlos Zelaya, irmão do ex-presidente Manuel Zelaya, figura central do partido Libre e marido de Xiomara Castro.
No vídeo, Carlos Zelaya aparece ao lado de alguns dos maiores narcotraficantes do país, que lhe oferecem mais de meio milhão de dólares para financiar a campanha eleitoral de 2013 de Xiomara Castro. “O problema é que o clã político Castro também se vê envolvido em redes de narcotráfico, justamente quando se apresentava como uma alternativa”, observa Daniel Vásquez, doutorando do CNRS, afiliado ao Centro de Estudos Mexicanos e Centro-americanos (CEMCA) e especialista em Honduras.
Fraude eleitoral
Essa desconfiança é reforçada pela fragilidade das instituições hondurenhas, começando pelas responsáveis por organizar o pleito. As primárias de março passado deixaram um gosto amargo: urnas entregues com atraso pelas forças armadas, centros de votação abertos tardiamente, suspeitas de fraude eleitoral… Todos esses incidentes alimentam uma dúvida persistente sobre a capacidade do país de conduzir uma eleição democrática. “Honduras não conta com uma instituição eleitoral imparcial”, acrescenta Daniel Vásquez. “O Conselho Nacional Eleitoral é controlado pelos três principais partidos políticos e se tornou um espaço de disputa, em vez de ser o responsável pela organização do processo.”
Um temor que também preocupa a divisão Américas da Human Rights Watch. Em comunicado publicado em 24 de novembro, a ONG expressou inquietação com as tensões dentro dessa instituição eleitoral, com medidas agressivas do Ministério Público e das forças armadas, além de alegações de sabotagem que, segundo ela, colocam “em risco o direito dos hondurenhos de participar de eleições livres e justas”.
Essa preocupação em torno do processo eleitoral não pode ser dissociada da história política recente de Honduras. O país nunca fechou de fato a ferida aberta pelo golpe de Estado de 2009, que derrubou o presidente Manuel Zelaya e continua a alimentar um profundo cansaço democrático. “Há uma espécie de saturação em relação às elites políticas e econômicas”, resume Gaspard Estrada, diretor executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (OPALC) da Sciences Po. “Neste país, vive-se em uma crise política permanente há 70 anos”, acrescenta Daniel Vásquez. “Honduras nunca foi capaz de construir instituições estáveis, seja para organizar eleições ou para reger a vida cotidiana.”
Prova disso é que os hondurenhos se preparam para votar em um país ainda sob estado de emergência. “Até que ponto podemos realmente falar de um processo democrático quando o governo pode fechar bairros e territórios sob o pretexto do estado de emergência? Vai usar isso para manipular os resultados?”, questiona o doutorando.
Preocupações econômicas
A essas falhas institucionais soma-se uma miséria persistente. Dois terços dos hondurenhos vivem abaixo da linha da pobreza e, em muitas regiões, o voto se mistura diretamente às preocupações mais imediatas: conseguir um emprego, ter o que comer, acessar cuidados de saúde. É o que mostra a última pesquisa de opinião realizada pelo grupo de reflexão hondurenho ERIC-SJ: para mais de um terço dos entrevistados, a prioridade absoluta do governo deveria ser a criação de empregos, seguida da melhoria dos sistemas educacional e de saúde e da saída da crise econômica. O combate à violência e à corrupção, embora onipresentes na campanha, aparece apenas depois.
No entanto, essas preocupações têm dificuldade em emergir nos discursos dos candidatos à presidência, sufocadas pelas acusações mútuas de fraude eleitoral. “Os hondurenhos conhecem esses candidatos há anos, sem nunca ouvir propostas reais para enfrentar os desafios que os preocupam”, critica Daniel Vásquez. Os três principais candidatos são, de fato, figuras conhecidas da cena política: o candidato do Partido Nacional, Nasry Asfura, dirigiu a capital Tegucigalpa por oito anos; a candidata do partido no poder ocupou diversos cargos ministeriais, inclusive sob a liderança de Manuel Zelaya; e Salvador Nasralla, do Partido Liberal, disputa a presidência pela terceira vez, sempre sob uma nova legenda.
Êxodo para os Estados Unidos
Paralelamente, diante da falta de perspectivas em um dos países mais instáveis e pobres da América Latina, milhares de hondurenhos continuam a seguir rumo aos Estados Unidos. As remessas enviadas pelos migrantes representam hoje quase um quarto do PIB do país. Esse é um dos elementos mais importantes do pleito, segundo Gaspard Estrada: “O tema da relação com os Estados Unidos está muito presente nestas eleições, dado o nível profundo de integração econômica de Honduras com esse país”, lembra ele.
Além disso, a relação bilateral foi recentemente abalada pela decisão de Donald Trump de expulsar hondurenhos e pela ameaça de Xiomara Castro de fechar bases militares norte-americanas. A poucos dias da votação, o presidente dos Estados Unidos chegou a declarar apoio ao candidato de direita Nasry Asfura, afirmando que não “poderia trabalhar” com sua rival, a advogada de esquerda Rixi Moncada.
A questão central, contudo, permanece sendo a aceitação dos resultados. As eleições hondurenhas já provocaram confrontos: em 2017, o anúncio do vencedor após três semanas de recontagem de votos foi seguido de violentas manifestações. Desta vez, muito dependerá da diferença entre os candidatos, avalia Gaspard Estrada: “Se a eleição for apertada, a problemática da fraude eleitoral vai ressurgir. Se o resultado for claro e inequívoco, todas as fraudes possíveis não servirão para ocultar o fato de que houve um vencedor.”
Segundo o especialista, também será necessário observar a reação das forças armadas e dos grupos empresariais, extremamente influentes no país, no momento do anúncio dos primeiros resultados. Sua postura poderá determinar a dimensão ou a ausência de uma crise pós-eleitoral.
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