A base do governo conseguiu maioria e rejeitou, na madrugada deste sábado (28), o relatório final da CPI Mista do INSS que sugeria o indiciamento de 216 pessoas, entre elas Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, além de empresários, políticos e operadores ligados ao esquema investigado.
O parecer, apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar (União-AL), foi derrotado por 19 votos a 12. A sessão começou ainda na sexta-feira (27), por volta das 9h30, e se estendeu até a madrugada, no limite do prazo para encerramento dos trabalhos da comissão.
Com a rejeição, a CPI corre o risco de terminar sem um relatório final aprovado, o que, na prática, esvazia as conclusões formais da investigação.
O QUE ERA INVESTIGADO
A comissão foi criada para apurar um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Segundo os dados apresentados, cerca de R$ 6,3 bilhões teriam sido retirados de beneficiários entre 2019 e 2024 por meio de cobranças associativas não autorizadas.
Os valores cresceram nos últimos anos e atingiram patamares bilionários após 2022, ampliando o alcance da investigação e o número de envolvidos citados.
INDICIAMENTOS PROPOSTOS
O relatório rejeitado propunha o indiciamento de nomes de peso na política e no setor financeiro. Entre eles:
- Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha)
- O senador Weverton Rocha (PDT-MA)
- O ex-ministro da Previdência Carlos Lupi (PDT)
- O empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master
- A deputada Maria Gorete Pereira (MDB-CE)
Também havia pedido de prisão preventiva para Lulinha, além de acusações envolvendo suposta atuação como facilitador em negócios ligados ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
DISPUTA POLÍTICA MARCA A CPI
Mesmo com a oposição ocupando cargos estratégicos na comissão, o governo articulou sua base e conseguiu barrar o relatório.
Um dos pontos de tensão foi a tentativa do relator de vincular as fraudes diretamente ao governo atual. Parlamentares governistas reagiram e acusaram o texto de ter viés político.
Durante a sessão, houve troca de acusações, bate-boca e interrupções. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou o andamento como “um circo”, enquanto aliados do relator criticaram a atuação da base governista.
RELATÓRIO PARALELO E STF
Com a rejeição do parecer principal, existe a possibilidade de análise de um relatório paralelo, elaborado por parlamentares do PT, que sugere outros encaminhamentos — incluindo o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro como “chefe de organização criminosa” e sem citar Lulinha.
A votação final da CPI ocorreu após decisão do Supremo Tribunal Federal que impediu a prorrogação dos trabalhos da comissão.
CONEXÕES POLÍTICAS E EMPRESARIAIS
O material analisado pela CPI também apontou relações entre o empresário Daniel Vorcaro e figuras políticas de diferentes espectros, incluindo parlamentares do centrão e aliados de governos anteriores.
Relatos de conversas e movimentações financeiras foram citados ao longo da investigação, assim como o uso de aeronaves e articulações políticas envolvendo nomes conhecidos do cenário nacional.
DESFECHO
Sem a aprovação do relatório, a CPI do INSS pode encerrar seus trabalhos sem um documento oficial consolidando as conclusões. Caso isso se confirme, eventuais investigações dependerão de iniciativas isoladas de órgãos como a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.
O resultado expõe a divisão política dentro da comissão e encerra, sem consenso, uma das investigações mais extensas sobre fraudes em benefícios previdenciários dos últimos anos.
FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO
